FRAGMENTOS CONJUGAIS

Atualizado: 4 de dez. de 2021

Venancio Junior

Dizem que o casamento é uma loteria. Muitos insistem nesta teoria fazendo entender que se trata de uma “roleta russa”. Será que isto é verdade? Acho que não. Primeiro, sorte biblicamente “falando” significa possibilidades. Não é algo solto que acontece por acaso. Segundo, as pessoas são imprevisíveis, caso contrário, acertaríamos sempre. Não existe uma receita infalível. Sequer receita exista. O que existe são princípios aplicados na vida individual que afetam diretamente o outro numa situação de compromisso conjugal. Qual seria, então, o melhor caminho? Na crise, a decisão certa, muitas vezes, é não tomar nenhuma decisão. Parar, refletir e deixar que as coisas fluam naturalmente sem perda de controle porque qualquer “pré-ocupação” gera tensão e, nesta condição, a falta de serenidade anula a capacidade de optar pelo melhor caminho que, pode não ser o que queira, mas, o que precisa, mesmo sendo dolorido e traumático. Pode ser que o caminho ainda não tenha sido encontrado e precise abri-lo na “mata cerrada” do relacionamento. Estas crises, muitas vezes, acontecem nos primeiros anos do casamento quando há somente os dois. Assentamento das emoções, adaptação das personalidades e uma gama de costumes e manias dispostas num ambiente agora compartilhado. Isto pode ser o começo de uma grande e excitante jornada. Mesmo casados e já acostumados com a nova vida, o que nunca deve deixar é o respeito mútuo. Lembro que respeito não é um mérito, mas, uma questão de educação. Respeitamos porque somos educados e não porque a pessoa merece. O casamento pode ter sido circunstancial, conveniente ou nunca fez parte de um processo construtivo e o resultado, neste caso, não precisará de terapia de casal para detectar onde aconteceu o erro. Vamos considerar o erro como ações na tentativa em acertar. O erro não é uma culpa isolada. O casamento é uma relação concomitante. Onde não há parceria, é impossível ter um ambiente que respire segurança quando tudo favorece a fragmentação do relacionamento. Numa situação de extrema insegurança, ao invés de se abrir e viver a verdade a dois, por mais dolorida que seja, se omitem e buscam soluções fora do núcleo conjugal gerando, desta forma, mais problemas tanto para o relacionamento e, muitas vezes, traumas pessoais que se perpetuará na vida individual de ambos. Quando isto acontece, numa situação emocional em “frangalhos”, o melhor é evitar os ressentimentos que causam desfiguração em tudo o que foi construído e que, em hipótese alguma, deva ser descartado como se fosse algo sem importância. A pressa é livrar-se o mais rápido possível do passado. Ninguém consegue se livrar do passado. O que precisa é aprender a conviver com ele. Na vida, de uma maneira geral, muitas coisas não acontecem conforme planejamos. A frustração surge quando o que se espera fica aquém daquilo que se idealizou. Isto é normal. Esta situação será saudável e construtiva se considerar como um momento de rever a relação se não se tornou algo nocivo à saúde emocional e nada tem acrescentado. Não existe comportamento padrão generalizado porque cada um tem a sua peculiaridade que deverá ser administrada de forma que se adéque aos diversos níveis de personalidades. Não hesite em desabafar, porém, com sabedoria. Evite o acúmulo de carga emocional, pois, poderá descarregar em hora errada. O gostoso de qualquer relacionamento é saber administrar o inevitável. Até mesmo as crises, por pior que seja, é obrigação comum enfrentar a dois que, quando bem-sucedido, traz grande prazer fortalecendo o vínculo. O relacionamento conjugal nunca deve ser assumido como um risco. Pode ser um grande e maravilhoso desafio na vida. Superá-los juntos ou separados, é uma questão de hombridade. Independentemente da decisão, o que foi construído juntos deve ser preservado mesmo separados. O respeito é algo que sempre deve fazer parte da relação por uma questão de princípios. Como já afirmei que respeito nada tem a ver com mérito. Tem tudo a ver com caráter elevado. Perder o respeito é desvio de caráter. Isto é muito sério. O que seria exatamente a falta de respeito? Na relação conjugal, o pior deles é a traição. Quem trai, não pode dizer que errou, pois, só erra quem está tentando acertar e traição jamais será uma tentativa em acertar. Traição é uma prática do mal. Não precisa ser exatamente um caso extraconjugal, mas, pode ser também uma simples decisão isolada que infringe diretamente o casal ou a família. Expor problemas conjugais ou familiares a terceiros. De qualquer forma, a traição é uma extrema falta de respeito e deve ser banida. Isto se aplica também na vida social, profissional e outros. Em qualquer nível de relacionamento, a atenção e dedicação ao outro deve ser sempre de forma altruísta. Na relação conjugal o carinho deve ser parceiro constante nas palavras e nos gestos. Todos nós precisamos de carinho, afeto e atenção. Sem esta afetuosidade a vida perde muito o sentido e a sua graça. O que devemos evitar é que a atenção exclusiva das pessoas, filhos ou o cônjuge, se torne uma exigência. Atenção dedicada é algo espontâneo porque é a única forma de demonstrar sinceridade. Todo mundo tem alguém com quem quer estar sempre por mera questão de empatia. O ideal seria o próprio cônjuge porque, quanto mais presente na vida, mais implica intimidade. Conhecer um ao outro é uma questão de necessidade e sobrevivência conjugal. Por exemplo, no relacionamento sexual, não se trata de sobrevivência no sentido de obrigação, mas, quando ambos ainda estão ativos e não acontece, com certeza, o relacionamento sobreviverá à mingua. Em I Coríntios 7:5 o apóstolo Paulo foi incisivo, “não vos priveis um ao outro”. No verso 3 do mesmo capítulo ainda lemos que “marido e mulher devem cumprir com o seu dever conjugal” e na sequência diz que “nem a mulher e nem o homem devem se dispor do corpo a terceiros porque um pertencem ao outro”. Fazendo um adendo, particularmente, no ato conjugal, julgo que a mulher é passiva e o homem é o ativo. O comportamento passivo da mulher é de ser amada e protegida na sua intimidade. O comportamento ativo do homem é o de cuidado, dedicação e proteção a alguém de sua intimidade. Dentro desta conjuntura, não faz qualquer sentido o relacionamento extraconjugal. A sexualidade é uma entrega. Assumir um compromisso conjugal é entregar-se também de corpo ao outro que, teoricamente, é a pessoa de maior confiança. Ninguém entrega o que é seu para um estranho. No capítulo 6:19 o apóstolo enfatiza de que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo para a glória de Deus e devemos fugir da imoralidade sexual. Casamento é uma construção de valores para favorecimento mútuo. Filhos, por exemplo, valor incalculável. Ouço muitos casais já desiludidos e até mesmo terapeutas conjugais afirmarem que filhos não “segura” casamento. Concordo em parte. Os filhos não podem ser jogados ao acaso quando “ninguém é culpado” por nascerem. "Os filhos são herança do Senhor para as nossas vidas" Salmos 127:3. Mesmo inicialmente não fazendo parte do plano original do relacionamento, um filho deve ser assumido como uma grande conquista. Quando nascem os filhos, a carga de preocupação se acentua porque a responsabilidade pela formação é dos genitores que ainda precisam administrar incessantemente a relação. Lembro que o cuidado para com eles independe da condição do relacionamento. Não amamos os nossos filhos porque são bons. Da mesma forma que também não amamos o nosso cônjuge por ser uma boa pessoa. Amar é algo incondicional. Muitos dizem que amor não é sentimento, mas é atitude. Creio que sejam as duas coisas intrinsecamente ligadas. O apreço aproxima as pessoas e o amor intensifica a relação pelas atitudes seja intencionalmente na parceria ou de forma espontânea. No relacionamento sempre deve haver o compartilhar das ideias, dos planos e, principalmente, dos sentimentos. Porém no decorrer da vida os relacionamentos se desgastam e podem perder o sentido e instintivamente tomar rumos ignorados. O ideal seria que, antes que aconteça este desgaste, reagir no sentido de revitalizar a relação ou, a grosso modo, cortar o mal pela raiz. Com ou sem crise, o entendimento deve ser um processo contínuo. O respeito ao outro nunca deve ser por mérito, pois, respeita-se a pessoa, mesmo que não mereça. Tanto no relacionamento conjugal ou com os filhos, em meio à uma potencial crise, deve-se evitar o confronto direto. No caso dos filhos, quando ainda estão na adolescência que é uma fase difícil até para eles mesmos que, numa busca incessante de identidade e querem conquistar o mundo, muitas decisões precisam ser tomadas em pouco espaço de tempo e julgam que já conquistaram o mundo e não admitem que alguém diga o que eles devem fazer. Entrar em confronto direto para quem está aceitando todos os desafios possíveis não é uma boa ideia porque a relação vai minando e chega num ponto que não tem muito o que fazer, tudo o que os pais disserem não vale e a melhor coisa é exatamente nada fazer e torcer para que aprendam da melhor forma possível. A maioria dos filhos nesta fase avançam destemidamente e transpõem todos os obstáculos possíveis. Isto é causado pela sobrecarga de energia da novidade em decidir pela própria vida. Não tem limite, até que amadureçam e percebam que precisam retornar, abaixar a poeira e reconhecer que sem o apoio dos pais nada seria possível porque, muitos, ainda dependem deles. Não se trata de questão financeira, mas de sentimento, afeto, apoio nas incertezas e o carinho que qualquer pessoa precisa principalmente daqueles que são mais próximos. Não somos perfeitos e temos os nossos defeitos, mas, em algum lugar deve ter alguma coisa de valor em cada um que propicie uma “compensação” e demonstre que vale a pena a convivência. Muitas vezes é difícil encontrar estes valores porque estão sufocados por um comportamento fechado, retraído e egoísta. Geralmente, reagimos de acordo com as circunstâncias e não tomamos qualquer iniciativa em agir conforme as qualidades. Muitas pessoas, mesmo na velhice, quando nesta fase não se exige muito da vida, estão escravizadas pelas suas convicções, ocultando o que tem de melhor. Talvez tenham de ser livres de si mesmas porque a própria vida pode estar fragmentada e que afeta o relacionamento conjugal. Viva a vida a dois sem a marra do ressentimento desfragmentando as emoções.

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