PALAVRAS E PODER

(Paulo José Corrêa)

Religiosos têm a tendência de atribuir sentido místico às coisas. Lugares, objetos, eventos, datas, pessoas etc. assumem uma áurea sobrenatural na religião. A igreja católica está recheada desses objetos místicos. Os neopentecostais estão explorando esse filão da crendice humana: óleo ungido, água abençoada etc.

Esse misticismo também é atribuído às palavras por alguns evangélicos. Certos vocábulos carregariam maldição devido ao sentido originário. Outras seriam uma chave para liberar poder para o bem ou para o mal. A pronúncia dessas palavras teria um efeito por si mesma, até independente da vontade de quem as pronunciou ou ouviu.

É verdade que a linguagem é mais que um instrumento de comunicação. Na medida em que é assimilada, ela influencia a visão de mundo da pessoa. E, assim, atua na construção desse mundo. É o verbo que se faz carne. Por isso, as palavras exercem um poder sobre as pessoas. Mas, esse poder não está nas próprias palavras.

Quais são as fontes desse poder? Uma delas é a relação entre a pessoa que fala e seus ouvintes. A expressão "eu te amo" pode provocar reações diferentes. Se for dita por quem estamos apaixonados, leva-nos ao céu. Se por um desconhecido, receberá um mero sorriso ou indiferença como resposta. Se por alguém que nos traiu, suscita raiva ou descrença.

O grau de poder das palavras depende de fatores que estabelecem o relacionamento entre locutor e interlocutor. Aspectos como hierarquia, prestígio, afeto, profissão determinam o poder das palavras. O que o Papa diz tem para os católicos um poder quase bíblico. Se um soldado ouvir "Sentido!" de um tenente, obedece de imediato. Se ouvir de um civil, terá como brincadeira. Por que as palavras bíblicas são reverenciadas? Porque são tidas como palavras de Deus.

"Sabemos quem é Paulo..., mas, vós, quem sois?", disseram os demônios a uns jovens que queriam praticar exorcismo em nome de Jesus, relata o livro dos Atos dos Apóstolos. E porque não tinham autoridade perante os demônios, as palavras daqueles exorcistas afoitos não tiveram nenhum efeito sobre os espíritos malignos. Ao contrário, conforme o relato bíblico, aqueles jovens é que foram expulsos pelos demônios (Atos dos Apóstolos 19. 13-16).

Esse exemplo mostra que o poder das palavras vem de uma relação de poder entre as pessoas. Isso se aplica a toda situação comunicacional: família, igreja, trabalho. As palavras são uma extensão da pessoa. Por isso, carregam o poder que quem as enuncia tem para os que as ouvem. São instrumentos de poder sobre tais ouvintes. Para o bem ou para o mal; para ajudar ou para manipular.

Fora da Bíblia, basta lembrar o exemplo de Hitler e a Alemanha. Como o ditador nazista era tido pela nação alemã como um herói salvador da pátria, as palavras dele fascinavam os alemães de tal modo que o apoiaram na missão genocida contra os judeus. Por isso, é bom perguntar: todas as palavras devem ser aceitas, desde que sejam ditas por quem tem autoridade sobre nós?

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